"(...) o tempo que traz progrssivamente o esquecimento, este, por sua vez, não deixa de alterar profundamente a noção de tempo, como os há no espaço. A persistência da antiga veleidade de trabalhar, de recuperar o tempo perdido, e de mudar de vida, ou antes, de começar a viver, dava-me a ilusão de que eu continuava a ser jovem;(...)"
Proust, M., Em busca do tempo perdido_A Fugitiva(VI volume) pgs 182/183, Lisboa, Livros do Brasil
sábado, 7 de fevereiro de 2009
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Uma das pessoas que mais admiro no nosso país: - O Dr Fernando Nobre(AMI)_ um excerto do seu bolg.
Regressei do Zimbabué dia 20 deste mês. Questões pessoais, saúde de uma das minhas filhas, impediram-me de escrever este texto mais cedo.
Como tudo na vida, a História deste país nunca foi preta ou branca, sempre cinzenta...A tragédia que assola este país (desestruturação do Estado, inflação inimaginável superior a 300 milhões de % em 2008, ditadura, fome, SIDA, cólera, desemprego massivo, desesperança tremenda…) é o resultado de uma colonização e descolonização desastrosas, de uma falta de bom senso gritante nas relações políticas e pessoais entre o país e a sua ex -“potência” colonial, e vice-versa, e de uma desgovernação tremenda por parte de uma liderança africana que teme o seu futuro caso tenha que deixar a cadeira do aparente poder…
Numa visão panorâmica sucinta da sua História mais recente, e por isso sem revisitar a sua pré-história (nem a possível origem dos hominídeos…) nem a história dos seus reinos pré-coloniais, bastará relembrar meia dúzia de factos:
- Cecil Rhodes, ao ocupar o que são hoje a Zâmbia e o Zimbabué (depois Rodésia e mais tarde Rodésia do Norte/Zâmbia e do Sul/Zimbabué) impediu a concretização do sonho português, o bem conhecido “Mapa Cor-de-Rosa”, que consistia em juntar numa faixa, do Atlântico ao Índico, Angola a Moçambique. Este facto, no imediato início do reino de Dom Carlos, terá contribuído para o fim da Monarquia em Portugal, sem culpa nenhuma do Rei Dom Carlos, diga-se de passagem.
- Sob mandato do Reino Unido, em 1961, foi criada uma constituição que favorecia completamente os brancos no poder na Rodésia do Sul (a Rodésia do Norte tornou-se independente com o nome de Zâmbia).
- Em 1965 o poder branco, liderado por Ian Smith, declara unilateralmente a independência. Nasce então a nova Rodésia, branca e racista, não reconhecida pelo Reino Unido e pela Comunidade Internacional, os quais exigiam mais direitos para a população negra.
- Em 1979 ocorrem finalmente eleições livres, após um período de sanções das Nações Unidas e de guerrilha, e nasce o Zimbabué, declarado independente em 1980, no seio da Commonwelth, com Robert Mugabe como Primeiro-Ministro. O mesmo torna-se Presidente em 1987 e, desde então, lá se mantém.
- O caos começa a instalar-se no país no ano 2000 quando Mugabe começa a sua campanha de redistribuição das terras. Essa campanha, que tinha a sua razão de ser (até aí uma ínfima minoria de agricultores brancos continuava a deter a grande maioria das terras agrícolas) foi infelizmente conduzida da pior maneira por parte de todas os interessados (governos do Zimbabué e do Reino Unido e agricultores brancos) que não souberam defender nem salvaguardar os seus “legítimos”, “justos” e “éticos” interesses nem salvaguardar os superiores interesses do país e das suas populações. Faltou-lhes um De Klerk e um Mandela e alguém no Reino Unido que conhecesse África, tivesse tacto e sensibilidade e soubesse não derramar óleo no fogo, servindo de elemento moderador e conciliador…
- Podia-se e devia-se ter feito, se bem negociada, uma reforma agrária com bom senso, gradual, com cabeça tronco e membros, com adequada e atempada formação dos agricultores negros, até aí, diga-se em abono da verdade, espoliados das melhores terras do país…
- Infelizmente para o povo do Zimbabué, todas as partes em causa, quando era necessário calma, racionalidade, sangue frio e interesse de Estado, reagiram sobretudo com emoção, egoísmo, ambições, por vezes turvas, e ultrapassados e infundados argumentos históricos…
O resultado está à vista: um profundíssimo descalabro que, como sempre, gravemente penalizou um povo inocente. Lá diz um provérbio africano: “Quando dois elefantes andam à bulha, quem se lixa é o capim…”. Assim foi, continua e continuará a ser... A desastrada reforma agrária levada a cabo só serviu a uma classe política e militar altamente corrupta que se apropriou das terras sem nada produzir… e exilou muitos agricultores brancos que partiram para a Austrália, Nova Zelândia, Moçambique, África do Sul, etc.
Hoje, vive-se uma situação económica e social inimaginável: numa população de 11 a 12 milhões de pessoas, cinco milhões vivem da ajuda alimentar das Nações Unidas, quatro milhões são emigrantes nos países vizinhos (África do Sul, Botswana, Moçambique, Zâmbia e …) para sobreviverem e permitir o sustento dos seus familiares …
Em termos cambiais, apenas três exemplos: - no ano 2008 foram tirados vinte zeros às notas… - dia 17 deste mês foram lançadas as notas de triliões de dólares do Zimbabué: no dia do lançamento, dia 17, a nota de 100 triliões (um trilião = um milhão de milhão) “valia” 1.000 USD para dois dias depois, dia 19, já só “valer” 60 (hoje é possível que só “valha” 2!) – já se fala em lançar notas em ziliões (?), notas com 60 zeros…
Em termos políticos, entre o ZANU-PF e o seu líder o Presidente Robert Mugabe, líder histórico da independência, e o MDC e o seu líder Morgan Tsvangirai, o impasse é total. A última ronda de negociações começada dia 19, ainda eu lá estava, terminou em mais um rotundo fracasso.
Em termos humanos o resultado é, como se depreende de tudo o que já expus, uma tragédia. Mas como o Zimbabué não representa nenhum interesse vital para a liderança global, nem em termos geoestratégicos nem comerciais (petróleo, coltan, urânio, diamantes…), a dança macabra para as suas populações vai poder continuar…
Espero que a nova liderança nos EUA se empenhe aqui, como na Região dos Grandes Lagos, na Somália ou no Darfur, na resolução desta catástrofe humana. Para que tal resulte será necessário, nomeadamente, dar ao Senhor Mugabe a garantia que ele não vai acabar a sua vida como um cão com sarna… como aconteceu, por exemplo no Zaire, com o Mobutu que, após ter bem servido a quem mandava, foi descartado sem dó nem piedade, ainda que padecendo de um cancro em fase terminal na próstata (salve-se a honra de Hassan II de Marrocos que o acolheu para morrer), em nome das cínicas relações e dos espúrios interesses da “real” diplomacia internacional…
É neste cenário que a AMI partirá muito em breve para prestar auxílio humanitário na Diocese de Gokwe, com cerca de 600 mil pessoas, a uns 300 km de Harare… É essa a sua missão.
Como tudo na vida, a História deste país nunca foi preta ou branca, sempre cinzenta...A tragédia que assola este país (desestruturação do Estado, inflação inimaginável superior a 300 milhões de % em 2008, ditadura, fome, SIDA, cólera, desemprego massivo, desesperança tremenda…) é o resultado de uma colonização e descolonização desastrosas, de uma falta de bom senso gritante nas relações políticas e pessoais entre o país e a sua ex -“potência” colonial, e vice-versa, e de uma desgovernação tremenda por parte de uma liderança africana que teme o seu futuro caso tenha que deixar a cadeira do aparente poder…
Numa visão panorâmica sucinta da sua História mais recente, e por isso sem revisitar a sua pré-história (nem a possível origem dos hominídeos…) nem a história dos seus reinos pré-coloniais, bastará relembrar meia dúzia de factos:
- Cecil Rhodes, ao ocupar o que são hoje a Zâmbia e o Zimbabué (depois Rodésia e mais tarde Rodésia do Norte/Zâmbia e do Sul/Zimbabué) impediu a concretização do sonho português, o bem conhecido “Mapa Cor-de-Rosa”, que consistia em juntar numa faixa, do Atlântico ao Índico, Angola a Moçambique. Este facto, no imediato início do reino de Dom Carlos, terá contribuído para o fim da Monarquia em Portugal, sem culpa nenhuma do Rei Dom Carlos, diga-se de passagem.
- Sob mandato do Reino Unido, em 1961, foi criada uma constituição que favorecia completamente os brancos no poder na Rodésia do Sul (a Rodésia do Norte tornou-se independente com o nome de Zâmbia).
- Em 1965 o poder branco, liderado por Ian Smith, declara unilateralmente a independência. Nasce então a nova Rodésia, branca e racista, não reconhecida pelo Reino Unido e pela Comunidade Internacional, os quais exigiam mais direitos para a população negra.
- Em 1979 ocorrem finalmente eleições livres, após um período de sanções das Nações Unidas e de guerrilha, e nasce o Zimbabué, declarado independente em 1980, no seio da Commonwelth, com Robert Mugabe como Primeiro-Ministro. O mesmo torna-se Presidente em 1987 e, desde então, lá se mantém.
- O caos começa a instalar-se no país no ano 2000 quando Mugabe começa a sua campanha de redistribuição das terras. Essa campanha, que tinha a sua razão de ser (até aí uma ínfima minoria de agricultores brancos continuava a deter a grande maioria das terras agrícolas) foi infelizmente conduzida da pior maneira por parte de todas os interessados (governos do Zimbabué e do Reino Unido e agricultores brancos) que não souberam defender nem salvaguardar os seus “legítimos”, “justos” e “éticos” interesses nem salvaguardar os superiores interesses do país e das suas populações. Faltou-lhes um De Klerk e um Mandela e alguém no Reino Unido que conhecesse África, tivesse tacto e sensibilidade e soubesse não derramar óleo no fogo, servindo de elemento moderador e conciliador…
- Podia-se e devia-se ter feito, se bem negociada, uma reforma agrária com bom senso, gradual, com cabeça tronco e membros, com adequada e atempada formação dos agricultores negros, até aí, diga-se em abono da verdade, espoliados das melhores terras do país…
- Infelizmente para o povo do Zimbabué, todas as partes em causa, quando era necessário calma, racionalidade, sangue frio e interesse de Estado, reagiram sobretudo com emoção, egoísmo, ambições, por vezes turvas, e ultrapassados e infundados argumentos históricos…
O resultado está à vista: um profundíssimo descalabro que, como sempre, gravemente penalizou um povo inocente. Lá diz um provérbio africano: “Quando dois elefantes andam à bulha, quem se lixa é o capim…”. Assim foi, continua e continuará a ser... A desastrada reforma agrária levada a cabo só serviu a uma classe política e militar altamente corrupta que se apropriou das terras sem nada produzir… e exilou muitos agricultores brancos que partiram para a Austrália, Nova Zelândia, Moçambique, África do Sul, etc.
Hoje, vive-se uma situação económica e social inimaginável: numa população de 11 a 12 milhões de pessoas, cinco milhões vivem da ajuda alimentar das Nações Unidas, quatro milhões são emigrantes nos países vizinhos (África do Sul, Botswana, Moçambique, Zâmbia e …) para sobreviverem e permitir o sustento dos seus familiares …
Em termos cambiais, apenas três exemplos: - no ano 2008 foram tirados vinte zeros às notas… - dia 17 deste mês foram lançadas as notas de triliões de dólares do Zimbabué: no dia do lançamento, dia 17, a nota de 100 triliões (um trilião = um milhão de milhão) “valia” 1.000 USD para dois dias depois, dia 19, já só “valer” 60 (hoje é possível que só “valha” 2!) – já se fala em lançar notas em ziliões (?), notas com 60 zeros…
Em termos políticos, entre o ZANU-PF e o seu líder o Presidente Robert Mugabe, líder histórico da independência, e o MDC e o seu líder Morgan Tsvangirai, o impasse é total. A última ronda de negociações começada dia 19, ainda eu lá estava, terminou em mais um rotundo fracasso.
Em termos humanos o resultado é, como se depreende de tudo o que já expus, uma tragédia. Mas como o Zimbabué não representa nenhum interesse vital para a liderança global, nem em termos geoestratégicos nem comerciais (petróleo, coltan, urânio, diamantes…), a dança macabra para as suas populações vai poder continuar…
Espero que a nova liderança nos EUA se empenhe aqui, como na Região dos Grandes Lagos, na Somália ou no Darfur, na resolução desta catástrofe humana. Para que tal resulte será necessário, nomeadamente, dar ao Senhor Mugabe a garantia que ele não vai acabar a sua vida como um cão com sarna… como aconteceu, por exemplo no Zaire, com o Mobutu que, após ter bem servido a quem mandava, foi descartado sem dó nem piedade, ainda que padecendo de um cancro em fase terminal na próstata (salve-se a honra de Hassan II de Marrocos que o acolheu para morrer), em nome das cínicas relações e dos espúrios interesses da “real” diplomacia internacional…
É neste cenário que a AMI partirá muito em breve para prestar auxílio humanitário na Diocese de Gokwe, com cerca de 600 mil pessoas, a uns 300 km de Harare… É essa a sua missão.
domingo, 25 de janeiro de 2009
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
E SE OBAMA FOSSE AFRICANO ( Mia Couto)
"E se Obama fosse Africano?"
(Jornal Savana, 14/10/08)
Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas - tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.Inconclusivas conclusõesFique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia."
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